Quais são os quatro principais pecados na hora de fazer negócios no País

 

Por Carlos Miranda*

Nos últimos tempos, muitas empresas e investidores estrangeiros estão direcionando o seu foco para o Brasil. Há casos de europeus que, ou estão líquidos buscando taxas de crescimento muito maiores que as de seus países, ou organizações que perderam os seus mercados e buscam aqui a grande chance de recuperação.

Em paralelo a isso, encontramos outros que entendem o Brasil como o país mais amigável entre os BRICs, e que estar aqui é quase uma “obrigação estratégica”.

Ao longo de vários anos participando de “cross boarder transactions”, vi várias transações falharem por conta da falta de conhecimento do nosso universo por parte dos estrangeiros e dos próprios brasileiros.

Hoje em dia, na medida em que a nossa economia torna-se mais aquecida, notadamente no que se refere a empreendimentos, esse desconhecimento de Brasil se torna mais relevante. A falha aumenta não só o risco de fracasso dessas transações, como a perda de excelentes oportunidades.

Sendo assim, procurei identificar os quatro principais pecados que tenho observado, nas duas partes, na hora de fazer negócios no Brasil:

1 – As incertezas são vistas como destruidoras de valor:
O Brasil é um país tradicionalmente caracterizado por incertezas positivas e negativas. Em uma economia como a nossa, em franco desenvolvimento, as incertezas positivas crescem proporcionalmente às oportunidades.

Em geral, executivos de países que tinham economias mais estáveis se acostumaram a esperar pelo futuro quando esse se mostrava incerto, associando incerteza à perda de valor.

Os executivos e, principalmente, os empreendedores brasileiros, são acostumados com as incertezas. Sempre trabalharam sem poder esperar que tudo se estabilizasse para tomar suas decisões. Mas é preciso notar que as incertezas podem, na verdade, gerar grandes oportunidades de criação de valor.

2 – Avaliação das Oportunidades:
Hoje, boa parte do valor de algumas empresas está baseada em um futuro que poderá ou não ocorrer. Executivos mais tradicionais e menos preparados para essa realidade tendem a dizer que o Brasil está caro e que a hora é de vender. Essa visão distorcida não considera que o que ocorre de fato é que o que se compra hoje são plataformas que viabilizam opções futuras.

Dentro deste conceito, analistas mais conservadores perderão excelentes negócios, pois enquanto esperam situações mais robustas, perderão espaço para aqueles que percebem que, além da plataforma, devem analisar aspectos intangíveis, como: competência do corpo de executivos, flexibilidade, inovação, conhecimento de Mercado, cultura, rede de relacionamento, “track record”, entre outros.

Não podemos esquecer que em muitos casos as avaliações deverão ser menos financeiras e mais de capital humano.

3 – Arrogância de achar que já viveu tudo:
Temos hoje vindo para o Brasil, investidores e executivos que já viveram coisas boas e ruins em termos de investimentos. Esses executivos já viveram bolhas, como as da internet e imobiliárias, além de momentos em que seus países estavam na moda, mas não conseguiram entregar o que era esperado.

O Brasil é diferente. Não digo que melhor ou pior, mas, efetivamente, diferente. Tentar comparar o que ocorre aqui com países menores que já estiveram na moda – ou com o fenômeno de crescimento da economia, com as bolhas de setores específicos – podem ser parte da análise, mas não a única análise.

Não podemos deixar de considerar que, além da estabilidade econômica, há uma tendência de mudança efetiva não só no tamanho do mercado consumidor, mas na elevação da sua qualidade, levada pela ascensão social, envelhecimento da população, urbanização e “novas economias”. notadamente no norte e nordeste do país.

Querer, portanto, comparar essa realidade a outras é, no mínimo, simplista e superficial.

4 – Velocidade e forma de negociar:
Pouco familiarizados com as oportunidades geradas pelas incertezas e com a velocidade típica de países desenvolvidos, muitos executivos colocados na linha de frente de negociações acabam tendo o cacoete de “operar” com o tempo, imaginando que “cozinhar” o vendedor trará vantagens na hora de concluir a negociação.

Esses executivos devem estar atentos que, para o bem e para o mal, as transações no Brasil deverão ocorrer em ciclos cada vez mais rápidos. Portanto, quem tiver vontade de jogar esse jogo deverá estar atento a isso.

Não é só o Brasil que mudou. A dinâmica da economia global e da geração de riqueza está mudando dramaticamente.

No livro “Future Wealth” publicado pela Harvard Business School, seus autores alertam para os três temas que deverão, cada vez mais, serem geradores de riqueza: 1) risco como oportunidade; 2) capital humano; 3) redes de Relacionamento. E isso o Brasil tem de sobra.

*Carlos Miranda é presidente e fundador do fundo de Private Equity BR Opportunities, mestre em administração de empresas pelo IBMEC RJ e co-autor do livro “Empresas Familiares Brasilieiras”, organizado pelo Prof. Ives Gandra Martins

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