Dívida dos brasileiros

Dívida dos brasileiros é alerta para outros países emergentes

Como milhões de pessoas pobres fizeram durante o boom de dez anos da economia brasileira, Odete Meira da Silva tomou empréstimos para acelerar a sua ascensão à classe média. Mãe solteira, ela comprou um computador, uma TV de tela plana e começou a construir uma casa num bairro violento da periferia de São Paulo.

Mas a farra dos gastos acabou. Essa pequena comerciante de 56 anos de idade está agora preocupada com um lado menos charmoso da vida da classe média: as dívidas. Depois que suas contas de cartão de crédito ultrapassaram o valor que conseguia pagar, Silva reduziu todas as despesas e interrompeu a construção da casa. Recentemente, via-se na sua casa uma escada rústica de cimento se erguendo da sala de estar até um segundo andar inacabado. É uma imagem da sua própria escalada na economia brasileira: só até a metade.

“Ainda pretendo terminar a casa, mas isso vai ter que ser feito pouco a pouco, talvez em mais três anos”, disse ela.

Os problemas de Odete Silva com suas dívidas ajudam a explicar por que o crescimento brasileiro, antes impressionante, vem perdendo fôlego e não deve se recuperar tão cedo. Muitos estrangeiros imaginam que o Brasil, um dos maiores produtores mundiais de soja e minério de ferro, seja um país pobre que depende da venda de commodities para sobreviver. Mas são os novos consumidores como Odete Silva que alimentaram boa parte da recente expansão econômica do país, enquanto o crédito ao consumidor mais que dobrou, para cerca de US$ 600 bilhões em cinco anos.

Agora, muitos desses novos compradores estão sofrendo com o uso excessivo do cartão de crédito. Alguns estão atrasando os pagamentos dos cartões, que chegam a cobrar 80% de juros anuais ou mais. Diante da inadimplência crescente, os bancos agora hesitam em emprestar.

Como resultado, o índice de aumento do consumo é o menor desde 2004. Isso está se juntando a outros problemas, incluindo exportações mais fracas para a China e uma queda na produção industrial causada pela valorização do real , fatores que já estavam desacelerando a economia brasileira. Com a confiança do consumidor em declínio, o PIB brasileiro deve crescer 2,4% este ano, após atingir 7,5% em 2010.

Para complicar as coisas, a explosão do consumo no Brasil provocou uma inflação de 6% ao ano, com a demanda pelos bens superando a capacidade da economia de fornecê-los. Isso colocou o Banco Central na incômoda posição de ter que aumentar os juros para controlar a inflação em meio a uma economia já lenta — iniciativa que pode desacelerar ainda mais o crescimento. Os economistas esperam que o BC eleve a taxa de juros básica, a Selic, que já está em elevados 9% ao ano, em meio ponto percentual na reunião de hoje.

Os problemas do Brasil representam um alerta a outros mercados emergentes envolvidos numa das mais fascinantes narrativas econômicas dos últimos dez anos: a ascensão dos consumidores à classe média nos países em desenvolvimento.

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LORETTA CHAOPor e John Lyons and
JOHN LYONS de São Paulo
Oct. 9, 2013 12:02 a.m. ET
WSJ

Mal do consumismo

Mal do consumismo

O mal que o consumismo faz

Em 30 anos, quem gasta R$ 20 por dia em “besteirinhas” desperdiça valor equivalente ao de um apartamento novo. Veja dicas para evitar essas perdas.

Publicado em 14/05/2013 | LANA CANEPA, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Será que você consegue se controlar com dinheiro na mão? O ato de consumir deve ser planejado, alertam os especialistas. A decisão de compra deve ser baseada em real necessidade, bom preço e oportunidade. Sem perceber, o consumidor acaba caindo em armadilhas que estimulam o consumo cego. Em um supermercado, por exemplo, tudo que o comerciante quer é que você se perca bastante antes de achar o que precisa, entre com bastante fome e se sinta em casa. Carrinho cheio é garantia de lucro no final do mês.

Quem gosta de desperdiçar trocados soltos no bolso, cuidado: o consultor financeiro, Raphael Cordeiro avisa que o efeito pode ser devastador. “Aquelas pessoas que gastam, à toa, R$ 20 por dia, desperdiçam em um mês, sem considerar fim de semana, R$ 400. Dá para pagar a prestação de um carro popular financiado. Em trinta anos, esse gasto inocente poderia ter custeado a compra de um apartamento de R$ 400 mil”, afirma o especialista.

O primeiro passo é reconhecer qual é a sua fraqueza e se defender dela. Se compra demais, deixe o cartão em casa. “Para comprar bem eu gosto de sugerir que as pessoas tenham dois cartões de crédito. Um com limite maior, para deixar em casa, e outro com o limite menor, para carregar consigo. Gastou todo o limite menor, vai pra casa sem comprar. Mas se tiver emergência ou viagem tem aquele cartão guardado”, complementa Cordeiro.

Outra dica é controlar as emoções. Quando estiver em um dia ruim, não desconte no cartão de crédito – a probabilidade de se arrepender logo depois da compra é enorme. O reflexo das compras emocionais geralmente aparece nas semanas seguintes às datas comemorativas. “Para mim quase todo endividamento financeiro é decorrência de endividamento afetivo: a pessoa se sente culpada porque não tem sido o filho que a mãe merece, por exemplo”, afirma a psicóloga Márcia Tolotti, autora do livro Armadilhas de consumo (editora Campus/Elsevier, 216 páginas, R$ 40).

Parcelamentos

Também é preciso ter o mínimo possível de contas parceladas. Para a escritora, o brasileiro parcela por uma questão cultural, não gosta de fazer planejamento “Afinal, não tem diferença, se você tem dinheiro para pagar a parcela, junte esse dinheiro e compre com desconto à vista, mas para isso tem que planejar”, conclui Tolotti. Mesmo porque perder o controle do orçamento mensal pode custar muito mais caro. Para os mais crentes, recomenda o consultor, carregar uma foto do sonho na carteira ajuda. “Se você quer comprar aquele carro ou terminar de pagar a faculdade do filho é bom se lembrar disso na hora em que abrir a carteira, uma forma de elevar a consciência para os objetivos maiores”, diz Cordeiro.

Para não entrar no vermelho

Conheça algumas orientações de especialistas em finanças para controlar o impulso consumista:

Depois de pagar as contas e juntar parte (20%) do salário, saiba quanto realmente pode gastar por mês;

Fuja das emoções, quem está realmente feliz não se endivida;

Quer dar aquele super presente? Antecipe-se às datas comemorativas, compre na promoção e guarde o presente;

Merecimento não pode ser usado como desculpa. “Eu mereço, minha mãe merece. A gente mesmo monta essa armadilha e cai. Você merece mesmo comprar coisas boas, mas sem entrar no vermelho”, afirma a psicanalista Márcia Tolotti.

Trabalho em casa

Como trabalho em casa pode reduzir custos para a empresa

Por DAVID WESSEL (WSJ)

A seguradora americana Aetna Inc. AET +1.86% temia perder talentos quando fechou algumas filiais depois de adquirir a U.S. Healthcare Inc., em 1996. Assim, decidiu deixar alguns funcionários trabalharem em casa. Dez anos depois, apenas 9% de seus empregados trabalhavam em casa em tempo integral.

Mas em meados dos anos 2000, a seguradora começou a ver que trabalhar em casa era mais que um favor aos funcionários. “Houve um momento em que percebemos que havia aí uma oportunidade para reduzir os custos, em particular com imóveis”, disse Elease Wright, vice-presidente sênior de recursos humanos, que trabalha na sede da Aetna em Hartford, no Estado de Connecticut.

Hoje, quase metade — 47% — dos 35.000 funcionários da Aetna nos Estados Unidos trabalha em casa. Não estamos falando em responder e-mails depois do jantar ou trabalhar em casa às sextas-feiras. Estamos falando em ficar em casa todos os dias: nada de ter um computador ou mesa em algum escritório da empresa.

Dan DeLucia, vice-presidente da unidade da Aetna que negocia acordos com médicos e hospitais, trabalha em sua casa em Syracuse, no Estado de Nova York, há nove anos. “Fiquei indeciso no começo”, disse ele. “Eu me preocupava em saber como iria administrar as coisas de longe. Na época, não havia mensagens instantâneas nem vídeo com a velocidade de hoje.

“Mas logo percebi que, na verdade, eu falava mais e me comunicava mais […] do que quando estava presente num escritório”, acrescentou, lembrando os velhos tempos em que trocava e-mails com colegas a dois cubículos de distância.

Muitos empregadores nos EUA incentivam o trabalho em casa. Cerca de 20% dos funcionários da Cigna Corp., CI +0.52% outra seguradora da área de Hartford, trabalham em casa. Uma pesquisa do Escritório do Censo dos EUA indica que 9,4 milhões de americanos, ou 6,6% dos trabalhadores, trabalharam exclusivamente em casa em seu emprego principal em 2010, contra 4,8% em 1997. Mas poucas firmas foram tão longe como a Aetna.

A extensão com que a Aetna moveu o trabalho do escritório para a casa dos funcionários reflete o esforço incessante das grandes empresas americanas de serviços para cortar custos, bem como o efeito que a disseminação de comunicações baratas, confiáveis e rápidas, em especial a internet, exerce sobre a economia.

No passado, o trabalho e a casa ficavam no mesmo lugar — fosse a fazenda ou a loja. O conceito de trabalhar fora de casa surgiu no início do século XIX, diz Ellen Hartigan-O’Connor, historiadora da Universidade da Califórnia em Davis. As fábricas da região da Nova Inglaterra, no nordeste dos EUA, empregavam moças, e depois imigrantes, para trabalhar nas máquinas e os alojavam em dormitórios. Escritórios se proliferavam e contratavam funcionários, que se mudavam para as cidades e moravam em pensões. “Essa separação dava apoio a uma fantasia da classe média de que o lar era um refúgio seguro no mundo cruel do trabalho”, disse ela.

Hoje, trabalhar em casa é principalmente para aqueles cujo emprego gira em torno de computador, telefone e internet. A Aetna requer dos funcionários que tenham um lugar sossegado para trabalhar. Ela exige e paga por móveis de escritório se necessário, assim como um arquivo e um triturador de documentos, mais computador, telefone e internet.

“Transformei um dos quartos em escritório”, disse Susan O’Donnell, enfermeira de Northfield, no Estado de Connecticut, que há 12 anos saiu de um hospital e se tornou analista de seguros na Aetna; já faz 7 anos que ela trabalha em casa. Ela valoriza a flexibilidade (“Posso dar um pulo no mercado, se precisar”), o fim das incômodas viagens diárias até o trabalho e mais tempo para a família.

E a empresa economiza. A Aetna estima que seus gastos com imóveis e custos relacionados sejam de 15% a 25% mais baixos com esse arranjo — uma economia anual de uns US$ 80 milhões. O trabalho em casa reduziu o espaço total de escritórios da Aetna em 250.000 metros quadrados, calcula a empresa. Algumas unidades pedem que o funcionário passe um ano no escritório antes de trabalhar em casa. Outras demandam uma produtividade acima da média.

A mudança transformou a cultura empresarial da Aetna. Há esforços deliberados para que funcionários remotos participem nas teleconferências. Algumas unidades marcam reuniões só para que empregados se conheçam pessoalmente. Supervisores dão dicas sobre como separar o horário de trabalho do resto do dia.

Há uma desvantagem: quem trabalha em casa tende a engordar. A Aetna agora oferece personal trainers on-line para que o pessoal de casa possa se manter em forma.